Como usar as cores na comunicação científica?

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A visão é uma das vias de comunicação mais fundamentais e um dos aspectos mais poderosos das imagens é a cor.(1)  Acredita-se que a cor seja a experiência visual mais importante para os seres humanos e, exatamente por isso, pode ser muito eficaz no esporte, marketing (incluindo aí marketing farmacêutico), comunicação (o que inclui comunicação científica) ou até mesmo no ambiente educacional.(2)

 

Cores específicas e suas associações

A cor é um estímulo perceptivo onipresente, que parece influenciar aspectos psicológicos em humanos. Por exemplo, em 1979, um diretor do Instituto Americano de Pesquisa Biossocial começou a observar variações psicológicas curiosas em seus pacientes — variações aparentemente relacionadas às cores às quais os pacientes eram expostos. Para testar sua teoria, ele convenceu os diretores de uma prisão naval a pintar suas celas de rosa, acreditando que o rosa acalmaria os presos. O que ele observou foi fascinante! As taxas de comportamento violento caíram drasticamente com a simples exposição dos presos às paredes cor-de-rosa. De acordo com o relatório de acompanhamento da Marinha: “Desde o início deste procedimento … não houve incidentes de comportamento errático ou hostil”.(3)

Além de induzir a calma, as cores podem evocar reações poderosas como calor, relaxamento, sensação de perigo e animação. Em suma, elas têm um poder notável para nos comover emocionalmente.(3)

Psicólogos especialistas em marketing já sugeriram que a cor é responsável por 60% da aceitação ou rejeição de um objeto, lugar, indivíduo ou circunstância. A impressão que um indivíduo tem da cor é feita em 90 segundos e, exatamente por sua natureza rápida e duradoura, a escolha da cor pode ter um grande impacto para o sucesso da estratégia de marketing.(3)

 

Em pesquisas já foi observado que:(3)

  • Azul está associado à riqueza, confiança e segurança. 
  • Cinza está associado à força, exclusividade e sucesso. 
  • Laranja tem conotação de baixo custo. 
  • Verde é visto como fresco, claro e agradável, mas quando iluminado em tons de pele torna-se repulsivo ou pode estar associado a cansaço e culpa.
  • Vermelho pode melhorar o desempenho humano em concursos e tarefas detalhadas, levar os homens a ver as mulheres como mais atraentes e sexualmente desejáveis e, ao mesmo tempo, pode induzir à evitação.
  • Roxo está principalmente associado a crianças e riso, uma associação positiva.
  • Branco tem um efeito calmante, produzindo menor quantidade de tensão.

 

Além das associações descritas, as cores podem influenciar os efeitos da emoção na memória. Pesquisadores descobriram que o vermelho aumentou fortemente a memória para palavras negativas, enquanto o verde aumentou fortemente a memória para palavras positivas. Além disso, um breve vislumbre de verde antes de um teste de criatividade pode melhorar o desempenho criativo.(3)

 

Aposto que você não esperava que as cores pudessem interferir tanto nas nossas vidas, não é?! Agora vamos ver alguns exemplos práticos de como as cores podem interferir na divulgação de conteúdo.

 

Será que as cores podem influenciar o comportamento nas redes sociais?

Como vimos, muitos estudos mostraram que as cores podem evocar emoções e impactar o comportamento humano, mas será que esses fenômenos podem direcionar a forma como agimos online?

Foi isso que dois pesquisadores americanos procuraram responder usando dados do Pinterest. Para isso, eles investigaram se as cores poderiam impactar a disseminação de imagens no ambiente online, analisando as tonalidades dominantes de todas as fotos marcadas e, posteriormente, usando um modelo matemático para caracterizar os efeitos das cores nos compartilhamentos.(3)

 

Os autores do estudo observaram que imagens em:(3)

 

Curiosamente, a pesquisa sugere que…(3) 

 

Uma interpretação é que os usuários do Pinterest estão mais interessados em compartilhar imagens emocionantes (imagens de cor vermelha) e elegantes (imagens de cor roxa) do que imagens legais, alegres e relaxantes (azul, verde, amarelo). É necessário mais estudos para descobrir por que essas cores são importantes e afetam as comunidades online dessa maneira. 

Esses resultados, junto de descobertas anteriores, reforçam que os conteúdos online que ativam emoções costumam ser mais virais. Na teoria das cores, Roxo e Vermelho provocam sentimentos de excitação (tanto de forma positiva quanto negativa), o que pode explicar a maior probabilidade de imagens com dominância dessas cores serem compartilhadas. Os autores acreditam que ainda há um rico horizonte de possibilidades e diversas questões abertas nesta área, mas que este estudo foi o primeiro passo para melhor entender como as cores podem modificar o comportamento humano no ambiente online.(3)

 

Como selecionar cores para a transmissão do conhecimento?

As cores podem ser muito importantes em diferentes situações, incluindo na transmissão do conhecimento. Isso porque as imagens podem ser de grande ajuda ao contar uma história, entender um conceito ou até mesmo para facilitar a leitura de um dado científico. Uma boa figura com uma boa escolha de cores pode facilitar a interpretação do estudo e ajudar a melhorar a legibilidade do resultado!(4)

Uma estratégia simples na seleção de cores é usar uma única cor (por exemplo, azul) e combiná-la com diferentes amostras dessa mesma cor (por exemplo, azul marinho e azul celeste). Uma abordagem alternativa é recorrer à prática de design gráfico e escolher várias cores relacionadas de todo o espectro. Aqui, oferecemos considerações práticas para a seleção de paletas de cores para uso em figuras.(4)

 

Incorporando a teoria da cor na seleção da paleta de cores

A teoria das cores é um conjunto de considerações práticas que orientam como melhor combinar cores em uma paleta. Entender os fundamentos dessa teoria pode ajudar a promover o desenvolvimento de figuras visualmente mais atraentes.(4)

Para começar, temos que considerar que a maioria do público tem contato com imagens pela tela de computador, tablet ou celular.  Em cada pixel de uma tela são incorporadas as cores vermelho, verde e azul, que também são as cores primárias do modelo RGB (do inglês Red, Green, Blue – vermelho, verde, azul). Por isso, é recomendado o uso deste modelo, por imitar o funcionamento dos monitores digitais modernos.(4)

Sabendo disso, utilizamos uma roda de cores para auxiliar na compreensão da relação das cores entre si e ajudar na seleção de paletas de cores (Figura 1).(4)

Figura 1. Roda de cores RGB de 12 cores com as suas cores primárias marcadas.

Adaptado de Plante e Cushman. Res Pract Thromb Haemost. 2020;4:176–180.(4)

 

A seleção de uma paleta para uma figura pode ser baseada na preferência pessoal, usando a intuição individual, e uma roda de cores pode orientar a seleção de combinações com base na inter-relação dentro da roda. Veja algumas combinações (Figura 2):(4) 

Figura 2. Sugestões de combinações possíveis usando uma roda de cores.
Adaptado de Plante e Cushman. Res Pract Thromb Haemost. 2020;4:176–180.(4)

 

Ainda é possível considerar o tipo de informação que será apresentada para montar a paleta de cores ideal:(5)

1. Paletas sequenciais são adequadas para dados ordenados que variam de valores mais baixos a mais altos, representados por uma variação de cores monocromáticas que vão de um tom mais claro a um tom mais escuro. Dessa forma, esse uso de cores compreende uma variação gradual de luminosidade, onde os valores de dados importantes são representados com cores mais escuras (Figura 3).

 

Figura 3. Exemplo de paleta de cores  sequenciais. 

Adaptado de Hattab et al. PLoS Comput Biol. 2020 Oct 15;16(10):e1008259.(5)

 

 2. Paletas divergentes mostram variação visual em 2 direções e é usada principalmente para dar ênfase tanto nos valores médios como nos dois extremos. A representação é tipicamente simétrica com variações de 2 cores escurecendo para representar diferenças em torno de um ponto de interrupção entre os dados (por exemplo, o zero ou o valor médio daquela sequência) (Figura 4).

 

Figura 4. Exemplo de paleta de cores  divergentes. 

Adaptado de Hattab et al. PLoS Comput Biol. 2020 Oct 15;16(10):e1008259.(5)

 

3. Paletas qualitativas: não dependem ou implicam em diferenças de magnitude entre as classes. Normalmente, as tonalidades são empregadas com luminosidade semelhante para representar diferentes dados nominais e categóricos (Figura 5).

Figura 5. Exemplo de paleta de cores qualitativas. 

Adaptado de Hattab et al. PLoS Comput Biol. 2020 Oct 15;16(10):e1008259.(5)

 

Acessibilidade para daltônicos

Leitores com daltonismo podem ter dificuldade em diferenciar cores, o que dificulta muito a distinção entre grupos experimentais e o entendimento da figura como um todo. Uma abordagem para tornar as imagens mais acessíveis para daltônicos é desenvolver figuras que não dependam apenas das cores para diferenciar os grupos.(4)

Uma opção é usar padrões de preenchimento ou contorno diferentes para ajudar na distinção entre os grupos experimentais. Se pegarmos como exemplo um gráfico de linhas, podem ser usadas uma linha sólida e uma linha tracejada. Outra opção é dar preferência a cores com níveis de luminosidade muito diferentes, aumentando o contraste entre elas e facilitando a leitura. Isso porque, se forem usadas duas cores diferentes, como vermelho e azul, mas com o mesmo grau de luminosidade, a figura fica com pouco contraste e de difícil interpretação para daltônicos. Já se for usada uma mesma cor mas com luminosidade diferentes, o contraste e a legibilidade aumentam, podendo-se usar, inclusive, escala de cinza (Figura 6).(4)

 

Figura 6. Exemplos do contraste entre as cores para identificar os grupos experimentais.

Adaptado de Plante e Cushman. Res Pract Thromb Haemost. 2020;4:176–180.(4)

 

Conclusões

As cores podem influenciar nossas emoções, nossa memória associada a palavras positivas ou negativas e também o compartilhamento de imagens.3  Além disso, escolher uma paleta de cores apropriada e contrastante também pode facilitar a legibilidade e interpretação de um gráfico, incluindo maior acessibilidade para daltônicos e, com isso, favorecendo uma boa comunicação dos resultados de estudos científicos.4 Assim, seja para obter maior sucesso de marketing3 ou para comunicar melhor dados científicos,4 é importante ter em mente algumas considerações na escolha de cores:

 

 

REFERÊNCIAS

 

  1. Crameri F, Shephard GE, Heron PJ. The misuse of colour in science communication. Nat Commun 2020;11(1):5444.
  1. Dzulkifli MA, Mustafar MF. The influence of colour on memory performance: a review. Malays J Med Sci 2013;20(2):3–9.
  1. Bakhshi S, Gilbert E. Red, purple and pink: the colors of diffusion on pinterest. PLoS One 2015;10(2):e0117148.
  1. Plante TB, Cushman M. Choosing color palettes for scientific figures. Res Pract Thromb Haemost 2020;4(2):176–80.
  1. Hattab G, Rhyne T-M, Heider D. Ten simple rules to colorize biological data visualization. PLoS Comput Biol 2020;16(10):e1008259.

 

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A KACHI é uma agência de marketing farmacêutico e comunicação científica, 100% especializada no segmento de Healthcare. Temos mais de 15 anos de experiência com projetos locais e globais, além de uma equipe técnico científica liderada por médica com ampla experiência na indústria farmacêutica e equipe de cientistas experientes, todos com PhD e sólida formação acadêmica.