Adoçantes artificiais podem causar câncer?

Adoçantes artificiais fazem mal à saúde?

Pontos-chave

  • A segurança de adoçantes artificiais ainda é um assunto controverso, já que existem estudos que mostram potenciais malefícios do seu uso para a saúde humana.
  • Em um estudo com mais de 100 mil participantes, o uso de adoçantes artificiais, em particular aspartame e acessulfame-K, foi relacionado a uma maior incidência de câncer.
  • No mesmo estudo, foi observado que tanto o consumo de adoçantes como o consumo exagerado de açúcar apresentavam o mesmo risco para câncer.
  • Uma possível alternativa ao uso de adoçantes artificiais são produtos de origem natural, como os glicosídeos de estévia e o xilitol.

 

Você provavelmente já ouviu falar que o consumo elevado de açúcar é um dos responsáveis pelo aumento na incidência de doenças metabólicas, como o diabetes e a obesidade. Nesse contexto, os adoçantes artificiais surgiram como uma alternativa ao açúcar presente em diversas bebidas e receitas, já que possuem maior poder edulcorante e contam com quantidade muito reduzida de calorias em comparação com o açúcar.1

 

Apesar de serem o tipo de aditivo alimentar mais estudado no mercado e de seu uso na indústria alimentícia ter aumentado substancialmente nas últimas décadas, ainda existem diversas controvérsias quanto aos efeitos dos adoçantes artificiais na saúde humana.1,2 

 

Na mesma medida que existem estudos que falham em demonstrar relação entre o consumo de adoçantes e diversas alterações de saúde, existem outros que sugerem que esses aditivos estão associados a uma maior incidência de doenças como:1

  • obesidade,
  • hipertensão,
  • síndrome metabólica,
  • diabetes tipo 2,
  • eventos cardiovasculares.

 

Apesar da associação entre os adoçantes artificiais e o câncer ainda carecer de evidências definitivas, especialistas vêm alertando as autoridades em saúde sobre dados que indicam que alguns adoçantes, em particular, o aspartame, podem estar relacionados ao desenvolvimento de câncer, como evidenciado por estudos in vitro, em modelos animais e alguns estudos epidemiológicos.1   

 

Afinal, adoçantes artificiais como aspartame e acesulfame-K podem causar câncer?

 

Uma pesquisa publicada em março de 2022 trouxe mais uma evidência desfavorável ao uso de adoçantes, como o aspartame e o acesulfame-K, dois dos aditivos mais utilizados na indústria alimentícia.1   

 

O estudo faz parte de um projeto francês chamado NutriNet-Santé, uma coorte online que busca elucidar as relações entre a nutrição e a saúde. Ao todo, foram analisados os dados de mais de 100 mil participantes, acompanhados por uma mediana de 7,8 anos. Os participantes registraram os alimentos consumidos, detalhando a quantidade e a marca do produto – com isso, os pesquisadores puderam quantificar o consumo de adoçantes e separar as análises pelo tipo de aditivo ingerido. O modelo utilizado para estimar os riscos de câncer foi ajustado de modo a diminuir a interferência de outros fatores de risco, como idade, tabagismo e histórico familiar e individual de câncer e diabetes.1   

 

O principal adoçante artificial identificado nos produtos consumidos foi o aspartame, contribuindo com 58% da ingestão, seguido pelo acessulfame-K (29%) e sucralose (10%). Outros tipos de adoçantes apareceram na pesquisa em uma porcentagem muito pequena e, por isso, não foram incluídos nas análises separadas.1

Porcentagem de consumo de cada tipo de adoçante artificial em relação à ingestão total de adoçantes artificiais.
Figura 1. Porcentagem de consumo de cada tipo de adoçante artificial em relação à ingestão total de adoçantes artificiais, conforme relatado pelos participantes do projeto NutriNet-Santé; N = 102.865. (Adaptado de Debras C. PLoS Med 2022;19(3):e1003950.1)

 

Ao analisar a incidência de câncer ao longo dos anos, os pesquisadores observaram que os indivíduos que consumiram mais adoçantes artificiais tiveram um risco 13% maior de desenvolver câncer em comparação com não-consumidores. Ao separar as análises pelo tipo de adoçante consumido, o aspartame e o acesulfame-K foram os adoçantes associados aos maiores riscos (15% e 13%, respectivamente). No entanto, não houve associação estatisticamente significativa entre o consumo de sucralose e câncer (Figura 1).1   

 

Razão de risco de desenvolver câncer em relação ao consumo de adoçantes em comparação com o grupo de "não-consumidores". Foi analisado o consumo de adoçantes em geral, aspartame, acesulfame-K e sucralose. Os outros adoçantes apareceram em menor quantidade nos dados citados pelos participantes da pesquisa e, por isso, não foram avaliados separadamente.
Figura 2. Razão de risco de desenvolver câncer em relação ao consumo de adoçantes em comparação com o grupo de “não-consumidores”. Foi analisado o consumo de adoçantes em geral, aspartame, acesulfame-K e sucralose. Os outros adoçantes apareceram em menor quantidade nos dados citados pelos participantes da pesquisa e, por isso, não foram avaliados separadamente. *P < 0,05 em comparação com o grupo de “não-consumidores”. HR: razão de risco, IC: intervalo de confiança.(Adaptado de Debras C. PLoS Med 2022; 19(3):e1003950.1)

 

Ao analisar a incidência de cada tipo de câncer, foi observado que o consumo de aspartame estava associado a maior risco de câncer de mama (22% em comparação com não-consumidores) e de cânceres relacionados à obesidade (15%). O consumo de adoçantes em geral também mostrou associação com estes últimos tipos de cânceres (aumento no risco em 13%). Essa categoria inclui tumores em que a obesidade está envolvida na sua etiologia, como o câncer de cólon e reto, fígado, estômago, boca, faringe, laringe, esôfago, ovário, mama, endométrio e próstata.1 

 

O que é melhor, adoçantes artificiais ou açúcar?

 

Considerando que o consumo excessivo de açúcar é um fator de risco já conhecido para o câncer, os autores realizaram análises adicionais visando entender a relação entre o consumo de adoçantes, açúcares e a carcinogênese. Surpreendentemente, não houve diferenças na incidência de câncer entre o grupo com alto consumo de adoçantes e baixo consumo de açúcar e o grupo sem consumo de adoçantes e alto consumo de açúcar.1 

Não houve diferenças na incidência de câncer entre o grupo com alto consumo de adoçantes e baixo consumo de açúcar e o grupo sem consumo de adoçantes e alto consumo de açúcar.

 

Esse resultado sugere que o uso de adoçantes artificiais e consumo excessivo de açúcar estão igualmente associados ao risco de câncer. Na Figura 3 abaixo, são apresentadas as razões de risco para diferentes perfis de consumo de adoçantes e açúcar. No gráfico, podemos observar que o maior risco para câncer foi observado no grupo com “alto consumo tanto de açúcar quanto de adoçantes artificiais”, ou seja, um risco 30% maior do que o grupo com nenhum consumo de adoçantes e baixo consumo de açúcar.1 

Razão de risco para o desenvolvimento de câncer de acordo com o perfil de consumo de açúcar e adoçante. Os valores nas barras indicam o aumento no risco de câncer em comparação com o grupo com nenhum consumo de adoçantes e baixo consumo de açúcar.
Figura 3. Razão de risco para o desenvolvimento de câncer de acordo com o perfil de consumo de açúcar e adoçante. Os valores nas barras indicam o aumento no risco de câncer em comparação com o grupo com “nenhum consumo de adoçantes” e “baixo consumo de açúcar” (P < 0,05). HR: razão de risco, IC: intervalo de confiança. (Adaptado de Debras C. PLoS Med 2022; 19(3):e1003950.1)

 

Relevância e limitações do estudo

 

É importante frisar que, até então, os estudos que buscavam elucidar a relação entre adoçantes e carcinogênese (processo de formação do câncer) utilizavam o consumo de produtos específicos (por exemplo, bebidas adoçadas) como padrão para estimar o consumo desses aditivos. Assim, este estudo foi o primeiro a avaliar o consumo de adoçantes artificiais de modo geral, presente em diversos alimentos industrializados – este detalhe se provou muito importante, já que em um estudo anterior da mesma coorte, em que foi avaliado apenas o consumo de bebidas adoçadas, não foi demonstrada associação entre esses produtos e o desenvolvimento de câncer. Aliado a isso, outro ponto forte do estudo é o tamanho da amostra e o tempo de acompanhamento, o que traz robustez aos resultados e tem um peso muito maior para o entendimento da relação entre adoçantes artificiais e desenvolvimento de câncer.1 

 

Apesar da sua relevância, deve-se levar em consideração que como todo estudo de associação, não é possível estabelecer relação de causa e efeito, e assim, não se pode descartar a presença de outros fatores que expliquem melhor essa relação. A relação entre adoçantes artificiais e carcinogênese deverá continuar a ser investigada para verificar se esses achados se replicam e, possivelmente, encontrar os mecanismos através dos quais se dá essa associação.1 

 

Adoçantes naturais podem ser uma alternativa

 

A percepção negativa dos adoçantes artificiais é uma tendência que vem crescendo entre os consumidores há algum tempo, principalmente por conta das controvérsias a respeito de possíveis malefícios para a saúde. Por essa razão, muitas pessoas têm buscado alternativas naturais para substituir tanto o açúcar refinado como os adoçantes artificiais, de modo a evitar potenciais efeitos negativos dos mesmos.3

 

Alguns produtos naturais que são utilizados como substitutos do açúcar já são amplamente conhecidos e apreciados pelo seu sabor, como o mel, melado de cana e açúcar de coco. Porém, seu consumo excessivo, assim como o açúcar refinado, também pode causar excesso de peso, obesidade, diabetes e síndrome metabólica.4 Adoçantes naturais, extraídos e purificados de produtos vegetais também são muito utilizados, como por exemplo, o eritritol, xilitol, glicosídeos de estévia, tagatose, glicirrizina e taumatina. De modo geral, esses produtos são considerados seguros, e há alguns estudos indicando que podem até mesmo exercer benefícios à saúde:

  • Glicosídeos de esteviol (estévia): apresentam possíveis benefícios à saúde metabólica,3 além de ser considerado seguro e hipoalergênico.5
  • Eritritol: estudos mostram que essa substância não afeta os níveis de glicose e insulina, sendo considerada segura para diabéticos. Não foi mostrado potencial carcinogênico ou mutagênico.5
  • Xilitol: além dos efeitos benéficos bem estudados na saúde bucal, parece ter propriedades anti-hiperglicêmicas (ou seja, parece ajudar a reduzir os níveis de açúcar no sangue). Possíveis efeitos indesejáveis no metabolismo lipídico e na hiperuricemia ainda precisam de mais investigações.4
  • Tagatose: há indícios de que pode diminuir os níveis de glicose após refeições.5
  • Glicirrizina: pode ter propriedades contra o câncer e infecções virais, além de antioxidantes e antiinflamatórias.5
  • Taumatina: não provoca cáries, além de ser hipoalergênica e não-tóxica.5

 

Conclusão

 

Nesta grande coorte de 102.865 adultos franceses, o consumo elevado de adoçantes artificiais (especialmente aspartame e acessulfame-K) foi associado ao aumento de 13% no risco de câncer em geral (P = 0,002), em relação aos não consumidores de adoçantes. Mais especificamente, a ingestão de aspartame foi associada ao aumento do risco de câncer de mama em 22% (P = 0,036) e aos tipos de câncer relacionados à obesidade em 15% (P = 0,026).1 

 

Esses resultados sugerem que os adoçantes artificiais, usados em muitas marcas de alimentos e bebidas em todo o mundo, podem representar um fator de risco modificável para a prevenção do câncer. E, dessa forma, esses dados fornecem novas informações para a reavaliação do uso dessas substâncias pelas agências de saúde em todo o mundo.1 

A segurança de adoçantes artificiais ainda é um assunto controverso, já que existem estudos que mostram potenciais malefícios do seu uso para a saúde humana. Em um estudo com mais de 100 mil participantes, o uso de adoçantes artificiais, em particular aspartame e acessulfame-K, foi relacionado a uma maior incidência de câncer. No mesmo estudo, foi observado que tanto o consumo de adoçantes como o consumo exagerado de açúcar apresentavam o mesmo risco para câncer. Uma possível alternativa ao uso de adoçantes artificiais são produtos de origem natural, como os glicosídeos de estévia e o xilitol.

 

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